Especialistas defendem investimentos em saúde mental

Para psiquiatras, prevenção ao suicídio requer acompanhamento especializado e investimentos em rede de assistência

Por Kissila Mell

Participantes da reunião da frente parlamentar aparecem na tela
Representantes de entidades apontaram aumento de casos de suicídio no Brasil nos últimos anos / Foto: Ellen Campanharo

A importância do acompanhamento psiquiátrico para redução dos casos de suicídios no Brasil foi um dos pontos centrais de debate em reunião da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental, realizada esta quarta-feira (16). O Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e prevenção ao suicídio, motivou o debate.

O presidente do colegiado, deputado Dr. Emilio Mameri (PSDB), apontou a correlação dos casos de suicídio com doenças psiquiátricas não diagnosticadas ou tratadas corretamente. O parlamentar chamou atenção para a quantidade de casos registrados no Brasil e em outros países.

“Todo ano, no mundo, mais de um milhão de pessoas tiram a própria vida. No Brasil, cerca de 12 mil casos são registrados por ano, com aumento significativo entre jovens nas últimas décadas. Além disso, o suicídio está entre as dez principais causas de morte na maioria dos países”, apontou o líder do colegiado.

O psiquiatra Humberto Corrêa, professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente da Associação Latino-Americana de Prevenção do Suicídio, concordou com os dados apresentados e ressaltou a relação direta dos problemas de saúde mental com as ocorrências.  “Grande parte dos casos estão relacionados a problemas de saúde mental. Se tivermos um sistema de saúde assistencial preparado, só com isso já conseguiríamos reduzir o número de suicídios”, disse.

O especialista ainda observou a importância de pessoas próximas observarem possíveis sinais de depressão. “Ao contrário do que a maioria costuma pensar, o suicida não é silencioso. Na maioria dos casos ele avisa, de alguma forma, um dia antes de tirar a vida”, destacou.

Investimentos em saúde mental

De acordo com Humberto Corrêa, estudos recentes realizados na região metropolitana de São Paulo comprovam que menos de 20% das pessoas que precisam têm acesso a um sistema de saúde mental de qualidade. Para ele, os altos índices de suicídio de um país, ou de uma região, refletem a qualidade da rede assistencial.

“Essa é a realidade do sistema de saúde brasileiro e que impacta diretamente com o número de suicídios. No Brasil investe-se muito pouco em saúde mental, então só falaremos efetivamente em prevenção do suicídio se mudarmos o rumo da política assistencial de saúde mental, aumentando os investimentos, mas também a filosofia do nosso sistema”, avaliou Corrêa.

O convidado ainda lamentou que o Brasil esteja no sentido contrário em relação à média mundial quanto à curva de casos. “No mundo tivemos uma redução de 20% nas últimas duas décadas. Aqui, no mesmo período, na contramão do que aconteceu com o resto do mundo, a taxa aumentou 20% por falta de estratégia e de prevenção. Como registramos esse aumento, é nítido que isso é reflexo de que não temos um sistema de saúde mental preparado para atender nossa população. Nunca tivemos estratégias nacionais de prevenção”, ressaltou.

Valorização profissional

Também psiquiatra e presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), Valdir Campos defendeu a adoção de equipe multidisciplinar e valorização dos médicos psiquiatras. De acordo com ele, nos últimos anos a falta de condições adequadas de trabalho, associada a baixas remunerações, deixou de atrair esses especialistas para a rede pública de saúde.

“Nós temos dificuldades de profissionais psiquiatras qualificados. Conseguimos implantar no estado a primeira residência de psiquiatria, com isso acreditamos que colheremos frutos de uma assistência de fato voltada para saúde mental do povo capixaba. Mas antes disso, também defendemos uma melhor preparação para os outros profissionais que atuam na área da saúde mental. A prevenção ao suicídio já começa com bons profissionais e condições adequadas para realizar o diagnóstico dos transtornos e das doenças mentais”, pontuou Campos.

O coordenador da Comissão Permanente de Atenção à Saúde dos Profissionais de Segurança Pública, Defesa Social e Justiça do Espírito Santo (Copas), Pedro Luiz Ferro, questionou se há carência de psiquiatras no país. No entanto, os especialistas presentes à reunião afirmaram que o número de profissionais é suficiente, a deficiência, de acordo com eles, está na estrutura da rede de atendimento. “Não faltam psiquiatras no Brasil, no entanto, temos menos de um terço dos leitos hospitalares para psiquiatria recomendado pela Organização Mundial de Saúde”, disse Humberto Corrêa.

O psiquiatra também criticou o modelo de concentração de atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Para ele, essas estruturas “não conseguem atender todas as demandas que um paciente com doenças mentais necessita”. Corrêa ainda avaliou que é necessário incluir ambulatórios, hospitais e outros serviços para a garantia de um sistema de atendimento integral.  

Pandemia

Os convidados falaram sobre o contexto atual da pandemia provocada pelo novo coronavírus e se mostraram preocupados com as possíveis consequências do isolamento social, do desemprego e da redução do poder aquisitivo de algumas pessoas. Ainda demonstraram preocupação com o aumento expressivo do consumo de álcool e outras substâncias químicas, além da falta de assistência adequada durante o período de quarentena.

“Saúde mental e o suicídio estão associados à vulnerabilidade genética, ao ambiente social e ao consumo de álcool e outras substâncias. O poder público e os especialistas devem ficar atentos com essa crise social. Infelizmente esperamos um grande aumento nos casos de depressão, doenças psiquiátricas e, consequentemente, nas taxas de suicídios”, concluiu Valdir Campos. 
 

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