Racismo linguístico: o preconceito no cotidiano

A doutora em Letras Jurema Oliveira defende a promoção de cursos antirracistas em órgãos públicos e instituições privadas

Por Larissa Lacerda  | Atualizado há 1 ano

Professora Jurema Oliveira em pé em ambiente arborizado ao ar livre
A linguagem representa uma parcela do processo estrutural do racismo, explica a professora Jurema / Foto: Arquivo pessoal

Dizer que não existe racismo no Brasil é um discurso utilizado para inviabilizar a luta por igualdade. A discriminação racial está presente em diversas esferas da sociedade, e a linguagem é uma delas. O preconceito é expresso de inúmeras formas, inclusive de maneira velada e banalizada socialmente. O racismo está frequentemente escondido também em expressões e termos de uso corrente, mas que estão imbuídos de carga pejorativa. 

A linguagem pode ser utilizada na construção e manutenção de uma sociedade excludente e opressora. Exemplos não faltam. É o caso da palavra denegrir, que significa escurecer, mas que é usada negativamente como sinônimo de difamar. Ou a expressão inveja branca, usada para positivar o sentimento da inveja, como se a cor branca fosse algo puro, inocente. 

A professora de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Jurema Oliveira explica que a linguagem que usamos é um reflexo do sistema social no qual estamos inseridos. “Vocábulos como mercado negro estão inseridos na perspectiva de racismo linguístico tão recorrente. Não basta ser politicamente correto em público, já que nas ações privadas continuamos sendo racistas”, afirma a doutora.

Jurema é coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Africanidades e Brasilidades (Nafricab/Ufes) e presidente-geral da Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos (Afrolic). A linguista defende a promoção de cursos antirracistas em órgãos públicos e instituições privadas na perspectiva de uma formação continuada. 

“Durante décadas, o movimento negro lutou por projetos de valorização dos direitos da população negra. No entanto, o mesmo movimento negro não teve acesso aos espaços oficiais para propor ações de formação que atendessem à população branca, já que são os brancos quem promovem o racismo sistêmico e não sistêmico”. 

Segundo a professora, essa conscientização é um dos passos na desconstrução social do racismo. A discriminação e o preconceito perpassam diferentes áreas, e a linguagem representa uma parcela desse processo estrutural do racismo.

Palavras e expressões racistas para excluir do vocabulário

  • A coisa tá preta – expressão racista utilizada para dizer que uma situação não está boa, relacionando a cor preta a algo ruim ou desagradável. 
  • Boçal – termo utilizado no período da escravidão para designar negros que chegavam do continente africano e que não falavam a língua portuguesa.
  • Cabelo ruim – expressão racista para depreciar o cabelo de pessoas negras e perpetuar o padrão de beleza do branco. Não existe cabelo bom ou ruim. O que existem são cabelos de diferentes tipos: crespos, cacheados, lisos, ondulados. 
  • Cor de pele – utilizado para se referir a objetos claros, beges. Como se uma pele clara fosse padrão. O termo desconsidera a diversidade racial, já que a população mundial é formada por pessoas com diferentes tonalidades de pele.
  • Da cor do pecado – expressão que objetifica e sexualiza o corpo de pessoas negras e as associa a algo pecaminoso.
  • Denegrir – significa “tornar negro, escurecer”. No entanto, é usado de forma desclassificatória. O termo pode ser substituído por difamar.
  • Dia de branco – refere a um dia de trabalho, como se apenas pessoas brancas fossem trabalhadoras. Utiliza a cor branca como algo positivo.
  • Inveja branca – usado para dizer que é uma inveja “positiva”, que não tem maldade. É um termo racista porque carrega a ideia de que a cor branca é algo bom, inocente.  
  • Mercado negro, magia negra, lista negra, ovelha negra – expressões que associam negro à negatividade, a algo ruim, ilegal, pejorativo.
  • Mulata – termo que vem da palavra mula, que vem do cruzamento de um cavalo e uma égua. 
  • Não sou tuas negas - expressão que também tem o contexto histórico da escravidão, em que mulheres negras eram estupradas e agredidas, sem que houvesse punição. A expressão subjuga mulheres negras, como se aceitassem tratamento inferior e desumano. 
  • Nhaca – termo utilizado para caracterizar odores ruins. A palavra surgiu para ofender a população negra. Inhaca é uma ilha de Maputo, em Moçambique, onde vive o povo nhaca. 
  • Preto de alma branca – expressão utilizada por pessoas racistas para “elogiar” uma pessoa negra. Faz referência à cor branca como sinônimo de dignidade, retidão.
  • Serviço de preto – expressão utilizada para criticar uma ação mal feita. Mais uma clara demonstração de preconceito, que subjuga o esforço e desqualifica o trabalho de pessoas negras.
  • Ter um pé na cozinha – expressão pejorativa que remete ao período escravocrata, em que a cozinha era o único local da casa grande permitido às pessoas negras. 
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