Hospitais acusam empresa de negligência

Paralisação das cirurgias cardíacas recebeu críticas de gestores de hospitais filantrópicos, que falaram sobre a atual situação no interior e na região metropolitana

Por João Caetano Vargas, com edição de Angèle Murad

Pessoas de costas e sentadas e à frente delas pessoas sentadas
Comissão de Saúde fez, nesta terça, nova reunião sobre a paralisação das cirurgias cardíacas / Foto: Tonico

De acordo com dados do Datasus, o Espírito Santo observou um aumento de quase 30% na oferta de cirurgias cardíacas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2015 e 2021. Acontece que, no mês passado, a empresa MedCardio, responsável pela maioria dos procedimentos cardíacos nos hospitais filantrópicos do estado, paralisou completamente os serviços, reivindicando entre outras pautas, reposição salarial. A Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa recebeu gestores desses hospitais para tratar do assunto nesta terça-feira (20).

O presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Estado do Espírito Santo (Fehofes), Fabrício Gaeede, negou a acusação de que os hospitais filantrópicos teriam feito um desligamento em massa dos cirurgiões cardiovasculares. “Na verdade isso não ocorreu. O que ocorreu de fato foi uma rescisão unilateral pela empresa Medcardio, que representa a grande maioria dos cirurgiões cardíacos do Espírito Santo, após fracassadas algumas tentativas de negociação”, afirmou.

Reivindicações

O convidado explicou que, além de reajuste no valor dos honorários, a empresa também reivindica ampliação de procedimentos em um dos hospitais filantrópicos. “Essa ampliação e esse reajuste solicitado impactaria hoje os custos da cirurgia cardiovascular em 70% e é importante destacar que os honorários da cirurgia cardíaca hoje são uns dos melhores praticados no Brasil”, analisou.

A empresa também alega que os hospitais estariam endividados. Sobre isso, Gaeede afirmou que somente cinco dos hospitais filantrópicos são responsáveis por 95% das cirurgias cardíacas realizadas pelo SUS no estado. “Desses cinco, apenas dois hospitais têm ainda endividamento com essa empresa. Endividamentos que foram tratados, foram negociados e estão sendo parcelados”, disse.

A empresa fez uma notificação aos hospitais no dia 1º de junho, alertando sobre a paralisação dos serviços e, pouco mais de dois meses depois, encaminhou carta informando a rescisão do contrato com as instituições. 

“Essa carta foi entregue a cada hospital no dia 12 de agosto e, a partir do dia 16 de agosto, nós não passamos mais a contar com o serviço da empresa Medcardio pra atender as nossas cirurgias eletivas, nossos pacientes internados e para atender as urgências e emergências que entravam em nossos hospitais”, protestou Gaeede.

O gestor relatou que, após a rescisão, foi feita uma reunião de negociação entre as partes, mediada pelo Ministério Público Estadual (MPES) e com a presença de membros da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa). Desse encontro saiu uma proposta de liquidação dos endividamentos para que a empresa aguardasse o fechamento dos trâmites contratuais com os hospitais. A proposta foi levada aos acionistas da empresa, que recusaram o acordo.

Após as falhas nas negociações, a Fehofes acionou a Justiça para que os serviços fossem continuados. “O número de pacientes nos hospitais começou a crescer, começou a acumular. Nós fizemos então as liminares, entramos com força de liminar, ganhamos e as liminares não foram cumpridas. O Estado entrou com outras liminares, com multas diárias de até R$ 100 mil por hospital e as liminares não foram acatadas”, informou.

Situação atual

Atualmente a região metropolitana do estado conta com sete cirurgiões cardíacos atendendo pelo SUS, na Santa Casa de Vitória e no Hospital Evangélico de Vila Velha. Segundo Gaeede, assim que esses profissionais assumiram, a demanda reprimida começou a baixar substancialmente.

“Esses profissionais começaram a trabalhar no dia 6 de setembro. Na primeira semana nós conseguimos realizar 12 cirurgias cardíacas, atendendo urgências e emergências, com um resultado significativo de boa recuperação desses pacientes. Além disso, em um dia nós zeramos todos os pacientes que estavam internados no Espírito Santo inteiro aguardando implante de marca-passo”, contou.

Sul do estado

O superintendente do Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim, Wagner Medeiros Júnior, chamou a atenção para os valores dos repasses mensais feitos à empresa pela instituição. O gestor afirmou que os valores somados se aproximam dos R$ 500 mil mensais, para o pagamento de três médicos que atuavam na região.

“Nos sete primeiros meses do ano nós repassamos, de recursos do SUS, para o pagamento de três médicos, para a Mediocard, o valor de R$ 300 mil por mês. Fazendo a conta por baixo, entre procedimentos de convênios particulares, nós tivemos também um movimento que não é inferior a R$ 160 mil por mês. Isso dá quase meio milhão de reais mensais que, direta ou indiretamente, a Mediocard recebe de nosso hospital para repassar a esses três médicos. É um valor bastante substancial”, ressaltou.

Além de questionar o valor pedido pela empresa, o superintendente entende que o momento não é apropriado para a paralisação. “A gente foi pego de surpresa, o aumento que eles pretendem é em torno de R$ 200 mil (mensais) pra esses médicos, num momento em que a gente está com um problema seríssimo, do movimento dos enfermeiros, um movimento justo, e também uma demanda imensa dos médicos do hospital”, lamentou.

Conforme Medeiros, o aumento pleiteado é muito acima do que outras categorias reivindicam e isso o preocupa. “Todas as categorias vêm buscando aumento e, dentro do meu ponto de vista, são muito mais justos do que esse aumento da cardiologia, porque eles são os que mais recebem lá nos nossos hospitais. Como nós ficaríamos diante dos demais membros do corpo clínico que requerem aumento às vezes até de R$ 1 mil, R$ 2 mil, por mês?”, questionou.

O superintendente da instituição disse que o hospital procurou por outros médicos do país para repor a equipe de cardiologistas e ficou surpreso com o retorno que teve dos profissionais procurados. “Infelizmente fizeram no Brasil um verdadeiro terrorismo. Ninguém quer vir pro Espírito Santo, porque estão passando uma imagem totalmente inverídica dos fatos que realmente estão ocorrendo. Hoje o Espírito Santo é um dos estados que melhor paga aos cirurgiões cardíacos”, avaliou.

“Eles têm medo de vir, porque tem o Conselho Regional de Medicina, já falaram que estão arriscados a serem cortados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardíaca se vierem. Então não conseguimos ainda trazer outros médicos. Porque é fato, eles quebraram toda a confiabilidade ao deixar de atender essas urgências e emergências”, complementou.

Colatina

A situação em Colatina não é diferente. O diretor-geral do Hospital e Maternidade São José, Octacílio Calixto, não acha justa a reivindicação da empresa. “O financiamento do SUS está cada vez pior no nosso país. Aí a gente depara com uma tabela que é bem remunerada, numa situação onde eles solicitam 80% de aumento e nesse momento eles abandonam o polo de trabalho. Isso foi exatamente o que chegou pra gente enquanto gestor”, relatou.

Calixto afirmou ainda que a Mediocard reclama uma dívida de R$ 6 milhões no município, mas, segundo ele, o hospital está em dia com a empresa, que, por sua vez, não aponta quais as instituições estão em débito. “O São José não deve. Por que deixar a população desassistida se o hospital não deve?”, indagou.

Para Rodrigo Seibel, presidente da Associação Evangélica Beneficente Espírito Santense (Aebes), o que a empresa fez foi uma irresponsabilidade. Em sua avaliação, o que está salvando a vida de muitos pacientes que ficaram imediatamente desamparados pela decisão da MedioCard, foi a união das instituições para tentar dar uma solução rápida ao problema.

“Se não fosse a coragem desses cinco hospitais, de se unirem pra dar um atendimento que infelizmente a Mediocard deixou de atender, hoje nós teríamos inúmeras mortes. Se nós tivéssemos cruzados os braços e dito que isso é problema do Estado, que isso é problema do povo, o que teria acontecido nesse estado? Muita morte. Nós assumimos por nossa conta em risco os nossos hospitais filantrópicos”, disse.

O coordenador do serviço de cardiologia do Hospital Evangélico de Vila Velha, Diogo Barreto, também deu o seu testemunho. “Durante esses tempos difíceis, de 16 de agosto pra cá, eu fui ao hospital todos os dias, inclusive sábado e domingo. Pra conversar com as famílias dos pacientes, que a gente fez o diagnóstico no pronto- socorro, de doença grave valvar, de doença grave coronariana. A pergunta é sempre a mesma: ‘Doutor, quando vai ser o meu procedimento, eu corro risco de vida?’”, contou.

No dia 6 de setembro, cardiologistas que trabalham para a empresa participaram da reunião do colegiado. Na ocasião a categoria expos a sua versão sobre a situação. Os médicos alegam uma queda na realização de procedimentos e a insustentabilidade dos serviços.

Comissão de Saúde

O deputado Dr. Emílio Mameri (PSDB) defendeu a retomada da conversa entre as partes. “Eu sou um conciliador por natureza. Eu acho que seria importante essa retomada, nós poderíamos normalizar o atendimento. Eu espero que possamos restabelecer um diálogo franco em benefício da população”, conclamou.

Para o deputado Luciano Machado (PSB), o momento dessa paralisação foi péssimo para o estado. “Quando o governador Renato Casagrande assumiu, nós tínhamos uma demanda reprimida de 19 mil procedimentos cirúrgicos. Isso veio diminuindo e aí veio a pandemia, travou novamente, e nós chegamos a 60 mil. Então num momento péssimo isso aconteceu, essa paralisação. Eu acho que quem quer melhorar o seu ganho tem que fazer um movimento, mas acho que de outra forma, sem desprezar o seu juramento”, opinou.

A reunião foi conduzida pelo presidente do colegiado, deputado Doutor Hércules (Patri). “Na verdade, como presidente da Comissão de saúde, o meu papel aqui é defender a saúde e especialmente defender o cidadão. Eu acho que todos têm suas razões, mas quem tem mais razão entre todos é aquele que precisa ser operado, isso eu vou defender até o último dia do meu mandato aqui na Assembleia”, concluiu.  

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